Reinaldo José Lopes, repórter de ciência da Folha, tem um texto muito legal. A gente lê as matérias que ele escreve e aprende. E saibam que estou dizendo aqui o que eu gostaria de ouvir das minhas.
O lide da reportagem "Humanos tiveram filhos com neandertais", de hoje (7/5/2010), é assumidamente fantasioso, como reforça a palavra "romance", cheia de duplo sentido, que o autor deixou no segundo parágrafo. É uma fantasia com tom romântico, não tanto do romantismo literário, mas, principalmente, do cinematográfico.
"À luz da fogueira, ele acariciou a pele clara, as pernas curtas e as madeixas ruivas da moça. Tudo nela contrastava com a tez escura e o porte esguio de seu amante. Os descendentes do encontro improvável, 50 mil anos depois, ainda estão por aí", escreve Reinaldo, abrindo um caminho enorme para a gente simpatizar com a informação a seguir.
Vou propor, aqui, numa brincadeira, que, em vez desse padrão, imaginássemos um lide naturalista - movimento literário que eu estudo e que era apaixonado pela ciência. Vamos ao exercício (não sei se dá pra publicar num jornal):
"Legítimo representante de uma nova estirpe, ele notou que saciara toda a sua sede de sangue matando cinco daqueles seres deformados, os últimos de uma linhagem ultrapassada e destinada à extinção. Percebeu, no entanto, que algo ainda vivia. Correu em sua direção.
As pernas mais longas de seu corpo escuro fizeram um bom trabalho. Rapidamente alcançou e empurrou o animal. Derrubou-o. Percebeu que era uma fêmea da família dos seus inimigos. Desde que a guerra começara, estava distante do sexo com genuínas representantes de sua raça superior. Não resistiu, cedeu à carne. Violou aquele corpo branco e asqueroso, coberto de cabelo cor de fogo.
Deste ultraje às regras da natureza, nasceria grande parte da humanidade."
A nova mania de colecionar figurinhas da Copa do Mundo traz à mente um cultuado livro infantil, “O Gênio do Crime”, lançado em 1969 e hoje na 58ª edição. O livro começa com a busca empreendida por uma turma de crianças por uma figurinha muito difícil para preencher o álbum. Aos poucos, se transforma numa história de suspense policial. Para o autor da obra, João Carlos Marinho, não é possível, porém, fazer muitas comparações entre seu livro e a febre agora provocada pelo álbum da Copa.
Num e-mail pessoal, mas avisado de que as respostas poderiam ser publicadas na internet, Marinho diz que elementos relacionados ao futebol são pouco significativos ou estão mesmo ausentes da trama.
De fato, a figurinha difícil do jogador Rivelino, então no Corinthians, que os personagens Edmundo e Pituca tentam obter no início do livro, funciona apenas como motivo inicial da obra.
Depois que a aventura se inicia, o problema da figurinha fica menor diante das revelações que o livro traz. Primeiro, é explicado o mistério da figurinha difícil: é ela que gera a febre e a busca incessante por novos envelopes, que garantem o lucro do fabricante.
Mas o fabricante enfrenta a concorrência desleal que, hoje em dia, chamamos de pirataria. E uma pirataria comandada por um gênio do crime, investigado por crianças que andam por toda a cidade de São Paulo, do centro à beira do rio Tietê.
“Se eu permitisse que uma força tão vibrante como o futebol fosse se intrometendo no livro a cada instante, isso me tiraria o foco dramático intenso da perseguição do cambista, dos perigos por que passa o (personagem) Gordo, a aventura dos meninos para acharem a fábrica e salvarem o Gordo, eu estaria tirando o leitor continuamente para ‘fora do livro’, o que seria uma coisa de amador”, diz Marinho.
Com ironia, ele completa: “Uma façanha incomum, tanto mais que o autor, eu, sou fanático por futebol, mas pela literatura eu faço qualquer sacrifício”.
Marinho, que era um advogado trabalhista em 1969, quando publicou “O Gênio do Crime”, escreveu logo em seguida “Caneco de Prata”, um livro infantil de narrativa não-linear –que ele apresenta aos leitores como uma “aventura surrealista”. Em 1983, voltou a publicar um livro de grande sucesso, “Sangue Fresco”, em que a turma do Gordo é sequestrada e levada para a Amazônia.
Há alguns anos, quando preparava um dos seus livros mais recentes (são 12 obras que têm como protagonista a turma de “O Gênio do Crime”), Marinho foi entrevistado por mim. Eu havia lido seu livro no começo da década de 1980, ainda criança, pouco antes ou pouco depois de tentar completar, sem sucesso, um álbum de figurinhas distribuídas em chicletes.
Naquela conversa, realizada em Monte Verde, cenário de algumas de suas obras, ele falou bastante de literatura, mas, sobretudo, de futebol.
Desde então, Marinho costuma responder meus e-mails, exceto quando sugiro que ele publique, num único volume e para adultos, todos os livros da coleção -sobre o que ele sempre silencia.
Diante da nova onda do álbum da Copa e das notícias de roubo de figurinhas na região do ABC (SP), enviei meia dúzia de perguntas despretenciosas (reproduzidas abaixo) a ele, que respondeu com um misto de impaciência e amizade.
Nas respostas, Marinho também conta que “Gênio do Crime” deve ganhar uma nova versão cinematográfica. A primeira foi feita em 1973. Dirigido por Tito Teijido, o filme se chamou “O Detetive Bolacha Contra o Gênio do Crime”. Para o autor, a violência urbana atual será um assunto que terá que ser enfrentado pelo novo produtor.
Leia a seguir a carta e as respostas de Marinho.
*
“Caro Haroldo,
Você é um amigo que sempre deixa saudade, vê se aparece. Para responder as suas perguntas é preciso estabelecer um corolário básico que tanto na intenção do autor como na reação do público, não deixa margem a dúvidas.
A paixão futebolística, a vibração com os ídolos e com os estádios, a atenção sobre os campeonatos em andamento, a lembrança dos passados, a própria relação física entre as figurinhas e seus representados são elementos total ou absolutamente ausentes em “O Gênio do Crime”.
Nem mesmo chega a ser um livro sobre figurinhas de futebol, a não ser de maneira extremamente secundária e quase imperceptível.
As crianças são as que sabem melhor disso: nesses 40 anos de contato com os leitores não recebi mais de oito perguntas sobre futebol, nunca sobre o enredo, mas como curiosidade marginal referente à camisa do Corinthians, que o Alex leva na fotografia da quarta capa.
As únicas pessoas que perguntam sobre isso são as que não leram o livro ou as que, como você, excitadas pelo fato novo desse álbum novo, são levadas automaticamente a fazerem uma aproximação com um livro que, embora "en passant", falou de figurinhas.
Mas você foi um bom leitor do “Gênio”, então é fácil lembrar:
1) O livro começa com Edmundo querendo encher o álbum e com uma fábrica que dá prêmios bons. O futebol não entra em cena.
2) Edmundo e Pituca procuram o Rivelino com a única finalidade de saber se o Rivelino pode ser útil a eles, dando-lhes a figurinha dele. Nem pedem autógrafo. Nem elogiam, nem se referem a nenhum jogo do Rivelino, nem se interessam em assistir a algum deles.
3) Compram o Rivelino do cambista, e daí para a frente tanto o futebol como a paixão por figurinhas somem do livro. Os dramas únicos são encher álbum (revolta na fábrica) e depois o único e exclusivo drama é seguir o cambista, achar a fábrica clandestina, depois achar o Gordo, que ficou preso, depois soltá-lo e se despedir do Mister.
4) O álbum de futebol deu um colorido inicial e depois tantos problemas, que a simples existência do mundo no futebol é considerada não existente.
5) É fácil notar que o livro se desenvolve por várias semanas, onde há o jogo do próximo domingo, e o jogo do domingo que passou: ninguém toca em uma palavra sobre isso, ninguém discute uma escalação ou um lance, daí a minha afirmação de que a "emoção" do futebol está excluída de “Gênio do Crime”. Ninguém dá a mínima. Depois que começam a seguir o cambista, podia ser uma coleção de borboletas, animais caçadores, e isso não mudaria nada. É claro que a pitada de futebol em cima deu o pontapé inicial no livro: só.
A razão é muito simples: se eu permitisse que uma força tão vibrante como o futebol fosse se intrometendo no livro a cada instante, isso me tiraria o foco dramático intenso da perseguição do cambista, dos perigos por que passa o (personagem) Gordo, a aventura dos meninos para acharem a fábrica e salvarem o Gordo, eu estaria tirando o leitor continuamente para ‘fora do livro’, o que seria uma coisa de amador. Obedeci ao velho Boileau: unidade de ação.
Uma façanha incomum, tanto mais que o autor, eu, sou fanático por futebol, mas pela literatura eu faço qualquer sacrifício.
Agora as suas perguntas:
Você está acompanhando a febre desencadeada por este novo álbum de figurinhas?
Não estou acompanhando a febre do novo álbum. Eu só me interessei por álbum de futebol até 13 anos, depois nunca mais. Uma coisa em comum com o livro é que, quando eu colecionava, eu pouco estava me importando com a qualidade, a personalidade ou o time da figurinha, eu só queria saber se era fácil ou difícil. E, sobretudo, eu só queria consegui-la. Nunca personalizei as figurinhas fora do que elas valiam no álbum, nem fiz relações delas com o mundo do futebol.
Você está colecionando? Tem alguma figurinha difícil?
Não estou colecionando.
Na região do ABC, foram roubadas milhares de figurinhas. Qual é o significado disto, mais de 40 anos depois da publicação de “O Gênio do Crime”?
Não fiquei sabendo, mas pelo jeito não em relação com uma "fábrica clandestina", nem com um "anão de óculos", nem com um "cambista".
Hoje o Gordo teria dificuldades para circular em São Paulo. Como ele faria a investigação desse crime?
Sem dúvida, infelizmente o Gordo não teria hoje uma cidade tão acolhedora e poética para circular, seria difícil os meninos ficarem sozinhos de noite, num tenda, no matinho à beira do rio. Lembre-se daqueles adolescentes que foram acampar na periferia, o moço fugiu, mas a moça ficou prisioneira e foi barbaramente estuprada e feito "escrava" por mais de uma semana.
O Gordo não tinha que enfrentar o ódio e a violência gratuitas, tão bem antecipados por Truman Capote no seu “A Sangue Frio”, de 1959, no qual, por US$ 200, dois bandidos exterminam e torturam uma família inteira. O contrato para a nova filmagem do “Gênio do Crime” está sendo elaborado e será assinado até 19 de maio: o produtor vai ter que enfrentar ou contornar esse problema.
Por que, mesmo com internet, as pessoas preferem o álbum de papel às informações digitais?
Acho que o álbum de papel -como também o de selos e de outras coleções-, ficou muito marcado, assim como o livro de papel. Tem aquele manuseio, o ato de virar página, de levar por aí, abrir, olhar... A internet ainda não substituiu os livros e os álbuns.
Teve gente que usou o álbum para defender que Neymar substituísse Adriano. E aí, qual seria seu time para a Copa?
Há elementos mais poderosos do que o álbum para achar que Neymar seja colocado no lugar de Adriano. O Adriano, segundo o próprio Tostão, é um grosso, um gordo, só chuta com um pé. A convocação do Neymar é obvia. Primeiro, porque ele não iria como titular, seria o reserva do Luis Fabiano, mas teria condição de ganhar a posição.
Se o Luis Fabiano tivesse outro reserva, o Dunga poderia argumentar, com as dezenas de exemplos de "fenômenos de três meses" que não deram nada depois, muitos deles tendo começado infinitamente melhores do que começou Neymar, como o Sávio, o Giovanni, o Edmilson, o Caio, o França, o Dodô, o Gil, o David.
Isso, sem contar os que pareciam gênios e não passaram de jogadores apenas regulares, como Djalminha, o Muller, o Diego do Santos, o Renato do Santos etc., que todo mundo jurava de pé junto que seriam gênios e sempre desapareceram com a camisa da seleção.
Mas tem um exemplo muito mais forte que o Neymar ai na nossa frente, a exigir convocação: é o meio de campo Thiago Mota do Milan, que vem jogando maravilhas e colocou o Messi no bolso.
Sobre o meu time para a Copa, acontece que o Brasil não tem um bom plantel, excetuando a defesa. Kaká é bom, mas não chega aos pés dos supercraques do passado e do presente, de um Cristiano Ronaldo, por exemplo. E o Kaká tem um problema físico.
Não temos um excepcional meio de campo e não temos ataque. De modo que eu acabo concordando com o Dunga: tem que funcionar na união, na base do trabalho feito, na valentia, “alla italiana” (que ganhou a Copa de 2006 na base da fibra, só).
A Espanha tem o melhor meio do campo do mundo, mas não tem boa defesa nem bom ataque. A Inglaterra é um dos candidatos, mas depois que um jogador começou a dormir com a mulher do outro a coisa azedou. Acho que a Argentina tem o time mais equilibrado, eu apostaria neles.
Não é uma boa safra, sobretudo na frente. Eu escalaria: Julio Cesar, Maicon, Lucio, Juan e um lateral a escolher, Gilberto Silva (na base do trabalho bem feito), Elano, Thiago Mota e Kaká, Luis Fabiano e Robinho.
Observação: O Daniel Alves, que muitos gostariam de ver no meio, tem feitos partidas pobres, tem mostrado recursos técnicos muito limitados, e seu potencial técnico foi exagerado.
'A Queda' e suas versões: comunismo da forma, capitalismo do conteúdo
Originalmente publicado no site www.operamundi.com.br - http://operamundi.uol.com.br/opiniao_ver.php?idConteudo=1104
A produtora do filme A Queda tomou uma decisão difícil de entender: pediu que o YouTube – e, por consequência, outros portais de armazenamento de vídeos – retirasse do seu acervo as paródias do filme que mostra os últimos dias de Hitler, ao fim da Segunda Guerra Mundial.
Dirigido por Oliver Hirschbiegel, A Queda, falado originalmente em alemão, deu origem a uma série de releituras críticas, que, por sua vez, deram, por meio de legendas, novos sentidos a uma cena específica, em que o isolamento do Hitler e da Alemanha nazista ganha uma forma icônica. A cena tem ainda o mérito de mostrar como, mesmo sob circunstâncias limítrofes, quando a consciência da ruína já é maior que a ilusão da possibilidade de vitória, o tirano arquetípico é capaz de manter o poder sobre aqueles que embarcaram no seu projeto.
O próprio Hirschbiegel disse já ter assistido a mais de 140 versões da cena. “Muitas vezes o trecho é tão engraçado que rio alto. Não poderia haver melhor elogio a um diretor”, afirmou em janeiro à New York Magazine.
As versões de A Queda ilustram muito bem o que alguns teóricos das artes e das comunicações chamam de “comunismo da forma”: o imenso repertório de imagens, dados, construções, produções etc. disponíveis na internet permite uma nova relação com as obras de arte – um processo de interação contínua, em que artistas e público trocam leituras, conhecimento e análises que ressignificam a abundante e excessiva produção da indústria cultural.
Veja (se ela não for excluída) mais uma releitura de A Queda, sobre a retirada dos trechos do ar:
A produção alemã, assim, rompeu fronteiras não só porque foi lançada mundialmente, dentro do esquema tradicional da indústria de entretenimento capitalista, mas porque foi relida e reconstituída por todos que viram naquelas imagens e naqueles sons especialmente encadeados pelos atores e pelo diretor Hirschbiegel a possibilidade de encaixar novos diálogos, frequentemente críticos em relação à política e à própria indústria da notícia e da cultura.
Essa nova forma de conceber a arte esbarra numa velha fórmula que sustenta o processo capitalista de acumulação da indústria cultural: aquilo que ideologicamente chamamos de “direito de autor”. O “direito de autor”, no caso, não pertence Hirschbiegel, o diretor, a quem a tradição da crítica cinematográfica costuma atribuir a “autoria”. Pertence à produtora do filme, a Constantin Films AG. A empresa parece ter tido problema com os detentores de outro direito, o “direito de imagem” de familiares de Michael Jackson, por conta de uma paródia. A reclamação quanto aos direitos de imagem fez com que a Constantin, dona dos direitos autorais, pedisse a retirada dos vídeos – e o YouTube obedecesse obsequiosamente.
Esse direito de autor em jogo, ou direitos autorais, responde a uma necessidade da indústria cultural capitalista, um limite evidente à interpretação e à ressignificação das obras de arte, enquanto o processo coletivo de produção de paródias de A Queda se encontra no polo oposto – apropria-se do que há de “comunista” na forma do filme, na sua possibilidade de releitura.
Quando, hoje, alguém faz uma parodia do filme A Queda, coloca-se em diálogo não apenas com a equipe de Hirschbiegel, que lançou seu filme há seis anos. Responde também aos estímulos de outras releituras, numa espécie de competição cooperativa que envolveu todos os outros que a parodiaram. E a parodiaram nas mais diversas línguas, rompendo barreiras geográficas por meio do grande acesso público que a internet proporciona.
Assim, um direito menos regulado parece ter sido atropelado pelo YouTube: o respeito à criação de quem fez paródias de A Queda. Ela também não deveria ser levada em conta? Está certo jogar na fogueira (ei, isto é uma metáfora!) tudo o que se pôde pensar, e por tanta gente, a partir deste pequeno trecho de filme só porque havia direitos autorais (da Constantin) e de imagem (de Jackson) já explorados à exaustão por seus proprietários?
O conflito do comunismo da forma e do capitalismo do conteúdo por trás das paródias de A Queda é extremamente simbólico de alguns outros conflitos do nosso tempo. Porque hoje o comunismo da forma, em construção cotidiana por todos os usuários de internet, esbarra de fato em algumas barreiras legais ainda garantidas aos detentores dos direitos capitalistas de reprodução dos produtos culturais. Para os "donos da cultura", no entanto, a tolerância com essa novidade é não apenas um tormento, mas uma necessidade – basta pensar quantos DVDs a mais de A Queda foram vendidos no mundo todo porque milhões de pessoas assistiram às paródias na internet.
PS: Em 2007, a exposição Comunismo da Forma, na Galeria Vermelho, em São Paulo, teve como um dos seus frutos o livro Comunismo da Forma, organizado por Fernando Oliva e Marcelo Rezende, que ajudei a publicar pela editora Alameda. *Haroldo Ceravolo Sereza é jornalista e diretor de redação do site Opera Mundi
Eu acredito em coincidência. O mundo está cheio delas. Mas acho que faltou alguém sacar que não dava para pôr no ar.
A coincidência só prova que o assunto está no ar. Não dá para transformar a Globo em vítima. Nem em vilã. Política não é novela das oito.
Agora, a provocação: o ato falho às vezes é mais revelador que o discurso consciente
A Globo tomou a sensata decisão de tirar do ar o trabalho e emitiu uma nota suscinta e, a meu ver, honesta.
"O texto do filme em comemoração aos 45 anos da Rede Globo foi criado - comprovadamente - em novembro do ano passado, quando não existiam nem candidaturas muito menos slogans. Qualquer profissional de comunicação sabe que uma campanha como esta demanda tempo para ser elaborada. Mas a Rede Globo não pretende dar pretexto para ser acusada de ser tendenciosa e está suspendendo a veiculação da campanha."
A Globo poderia, sim, ter problemas com a Justiça Eleitoral. Basta lembrar que, mesmo na eleição em que tudo podia, a de 1989, um comercial de tintura para cabelos (Biocolor) foi retirado do ar porque dizia que ia dar (bio)Collor na cabeça.
Depois de oito temporadas, a série 24 Horas, produzida e estrelada por Kiefer Sutherland, foi oficialmente “descontinuada” alguns dias atrás. O mundo perde, assim, o maior dos heróis da era Bush: Jack Bauer.
Trata-se de um fato aparentemente menor da indústria cultural, mas que guarda profundo significado político, pelo menos do ponto de vista simbólico.
24 Horas surge após os atentados contra as torres gêmeas, em 11 de Setembro de 2001, e funcionam do ponto de vista imaginário como um suporte às políticas de exceção adotadas pelo governo estadunidense. Ela é significativa por seu discurso e por sua trama, mas, mais que isto, ela conquistou enorme sucesso nacional e internacional por conta de sua forma.
A ideia de um dia de tensão, dividido em 24 episódios de uma hora cada, exibidos em 24 semanas, resultou, neste seriado, numa forma que se casava excepcionalmente bem com o conteúdo que ela buscava transmitir. A direita extrema, que por muito tempo andara sem discurso, encontrara não apenas o que dizer, mas, o que às vezes é mais importante, um “como dizer” extremamente bem sucedido, até do ponto de vista artístico.
Claro que não foi Bauer que inventou o “clock movie”, o cinema ou a TV em tempo real, mas ele deu um novo sentido a ele.
No dia sem descanso de Jack Bauer, que se prolonga na prática por quase meio ano (sem contar as reexibições), estão contidos os conceitos de exceção e da ameaça permanente. No dia sem descanso de Jack Bauer, o herói premido pelo tempo, o que o “obriga” a agir sem limites. No dia sem descanso de Jack Bauer não há tempo para ir ao banheiro, mas sempre há um machado por perto para cortar a mão de um terrorista que não quer “colaborar”.
Apesar de ser um herói sem limites, um Chuck Norris dos tempos em que Chuck Norris virou uma piada, Jack Bauer é, desde um início, um herói fracassado. O terrorismo de grupos isolados ou de Estados potencialmente perigosos (China, um país africano etc.) é sempre maior do que a sua capacidade de agir, sozinho ou em companhia de seus amigos da unidade de combate ao terrorismo.
A melhor tradução disto não apareceu na série, mas na propaganda de um veículo que Sutherland veio gravar no Brasil. Nela, dentro de um carro, Bauer goza de conforto e silêncio, enquanto as ruas de São Paulo são destruídas sabe-se lá por que ou por quem. Ou seja, o espaço de tranquilidade que sua ação garante é pequeno e provisório. O mundo ameaçador continua lá fora, e Bauer não pode nem ao menos abrir a porta.
A ideia de um heroísmo fracassado, por paradoxal que parece, foi muito útil ao domínio do Estado pela direita extrema estadunidense, embora ela expressasse a impotência da política. Porque uma guerra sem fim exige uma mobilização sem fim e abre as portas para todo o tipo de prática “excepcional”. Lembremos que, quando foi preciso, Bauer torturou o presidente, sinal inequívoco de que a luta ao terror deveria poder passar por cima das instituições.
Outra característica da ação de Bauer é a convivência com governantes que, no campo do imaginário, correspondem aos democratas: presidentes negros e mulheres, que antecederam ou sucederam gestões que tinham uma cara mais “republicana”. O republicanismo radical de Bauer se colocava acima de todos, e todos dependiam dele.
Agora, estamos num mundo que não precisa, pelo menos do ponto de vista simbólico, de Jack Bauer.
Viva a Era Obama!, alguém vai festejar.
Tudo bem, do ponto simbólico, é possível comemorar o fim de Jack Bauer. Mas as guerras reais e prisões ilegais de Bush, no Afeganistão, no Iraque, em Guantánamo e nos aeroportos dos Estados Unidos, continuam aí. Com Obama e Hillary Clinton fazendo o serviço sujo que não acaba com a aposentadoria de Bauer.
PS: O discurso da guerra ao terror de Bush continua a justificar barbarismos ao redor do mundo. Putin correu e anunciou que os ataques desta segunda-feira (29) em Moscou foram realizados por rebeldes chechenos, enquanto um jornal russo escrevia: “Parece que se trata de duas shahidis, mulheres bombas do Cáucaso, que fizeram um pacto de sangue, em que estas porcas “honram” a morte de familiares masculinos com esse tipo de covardia. Porém, há rumores que poderia ter sido perpetrado por elementos hostis ao Islã, para denegrir o seu nome. O mais provável seria a primeira hipótese, pessoas que detestam seres humanos. Terão de ser exterminadas.”
*Haroldo Ceravolo Sereza é jornalista e diretor de redação do site Opera Mundi
Como Olavo de Carvalho não se constrange em dizer o que diz, hoje, na Folha, uma cartinha singela e quase sem adjetivos (deve ser duro fugir do próprio estilo) do 'soi-disant' filósofo mostra a quem servem suas ideias:
"Se alguma vez concordei em gênero, número e grau com alguma opinião do senhor Roberto Jefferson (presidente nacional do PTB), foi no último dia 19, ao ler nesta Folha o seu artigo "São ideológicos, por isso corrompem" ("Tendências/Debates"). Nada tenho a acrescentar ou a modificar nesse texto, pela simples razão de que é um plágio do meu artigo "Pensem nisso", publicado pelo "Diário do Comércio" de 5/1 e reproduzido desde então no meu site. Confiram e verão." OLAVO DE CARVALHO (Curitiba, PR)
Como já dei o link no post abaixo, acho que podia cortá-lo da carta acima.
Igualmente constrangido, Roberto Jefferson:
"Fui induzido ao erro por um antigo colaborador que me enviou o texto como seu. Subscrevi as ideias, porque comungava com elas (quem leu o texto na íntegra verá que não são absolutamente iguais). Mesmo assim, peço desculpas ao professor e à Folha pelo lamentável equívoco." ROBERTO JEFFERSON , presidente nacional do PTB (Brasília, DF)
Numa hipótese maluca, vamos imaginar que um militante de esquerda - PT, PSOL, PSTU, você escolhe - tivesse plagiado Olavo. Ou ainda, que um integrante do segundo escalão da Casa Civil achasse uma receita de bolo no site de Olavo de Carvalho e achasse por bem compartilhá-la na Internet.
Quantos adjetivos, conspirações e ameaças revolucionárias ele citaria para provar a falta de moral dos "comunistas"?
Robertão, você não tem de pedir desculpa, não. Seu plágio é revelador demais. A sociedade brasileira mais uma vez agradece seu desprendido gesto.
PS 1 - Claro que o fato de você culpar um subalterno não é irrelevante. Só faz a gente de admirar ainda mais.
PS 2 - O que Olavo faz em Curitiba? Ele não estava no Canadá?
Acabo de descobrir, com dois dias de atraso, que Roberto Jefferson plagiou um texto de Olavo de Carvalho em artigo publicado recentemente na Folha.
Como Jefferson é um cara malandro, copiou um artigo de jornal - que o próprio Olavo de Carvalho tinha colocado na íntegra em sua página na web. Muito esperto, irritou até os leitores do incrível Mídia sem Máscara, o portal da extrema direita brasileira.
Não vou dar os links porque ninguém merece. Tá bom, vou dar os links: Pensem Nisso(Olavo de Carvalho) - São ideológicos, por isso corrompem(Roberto Jefferson, no ar no site do PTB até 20h45 de domingo). Alguns trechos são copy e paste. As ideias, as mesmas.
A região oeste da Nicarágua, tradicionalmente território de monocultura, está vivendo uma situação de emergência de saúde por causa dos altos índices de IRC (insuficiência renal crônica) entre a população, principalmente os trabalhadores da agroindústria açucareira e as comunidades que vivem nas proximidades dos canaviais.
O texto de Giorgio Trucchi. publicado pelo Opera Mundi, dá mais detalhes do caso. A principal suspeita é que agrotóxicos sejam os causadores do mal.
O PSOL deve lançar mesmo Plínio para presidente. Plínio recebeu hoje apoio formal de Ivan Valente, que comanda a tendência de maior expressão no partido, além de contar com o apoio de mais 6 grupos do partido.
Não havia muita alternativa, uma vez que o PSOL não pode, por questões históricas, apoiar no primeiro turno Dilma (talvez nem no segundo) nem tinha como apoiar uma candidatura Marina - que deu sua vaga de vice para um megaempresário.
Entrevistei Plinio três vezes. A mais descontraída foi quando ele falou sobre sua relação com Florestan Fernandes, especialmente no período da Constituinte. Foi para o livro que eu escrevia.
Outras duas vezes foram para o UOL, quando decidiu se lançar candidato, em outubro deste ano. Ele contou porque, com mais de 80 anos, achava que tinha de disputar a presidência - quer ser uma voz discordante, porque, para ele, Dilma não é diferente de Serra.
No dia 15 de novembro de 1989, o Brasil votou pela primeira vez para presidente da República após o fim da ditadura, numa eleição com mais de 20 candidatos na disputa e rivalidades viscerais que eles não tinham o cuidado de disfarçar.
Eleições 1989: 20 anos depois, Collor canta jingle 'Lula-lá'
De lá até hoje, alguns rancores foram mais ou menos superados, novos foram criados, mas nada se compara ao fato de o hoje senador Fernando Collor integrar a base de apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Senado. Collor (ex-PRN, hoje PTB) não apenas apoia Lula (PT) - entrevistado pelo UOL Notícias para este especial, disse não se lembrar de seus jingles de campanha, mas cantou o de Lula, o "Lula-lá" (assista ao vídeo acima).
COLLOR
Aquele coral de atores, atrizes, todas cantando essa música, com aquela bandeira vermelha, a estrela branca tremulando por trás, eu ia dormindo e acordava cantando a música do Lula
A partir de hoje, o UOL Notícias publica uma série de reportagens especiais sobre a eleição de 1989. Foram entrevistados os candidatos a presidente Fernando Collor, Paulo Maluf, Guilherme Afif Domingos, Ronaldo Caiado e Fernando Gabeira, o ex-presidente José Sarney e marqueteiros de Lula e de Collor. Lula disse não dispor de espaço na agenda para atender à solicitação de entrevista.
Lula foi o principal adversário de Fernando Collor, que acabou eleito presidente - em 1992, o PT foi um dos principais responsáveis pelas investigações da Comissão Parlamentar de Inquérito que levaram, após uma série de denúncias de corrupção, Collor a sofrer o impeachment e ser afastado da Presidência.
Collor, por sua vez, atacava duramente o presidente José Sarney (PMDB), que deu um chega pra lá no candidato do seu partido, Ulysses Guimarães (traído por quase todo seu partido, assim como Aureliano Chaves, o candidato do então Partido da Frente Liberal, o PFL, hoje DEM).
SARNEY
Dormi em todas as escolas militares, antes de deixar [a Presidência]. Fui à Academia da Força Aérea, fui a Resende, conversando com os chefes militares sobre a democracia, a eleição e tudo
Leonel Brizola (PDT), o terceiro colocado no primeiro turno - e que por pouco não chegou ao segundo turno -, batia sem dó no dono da Rede Globo, Roberto Marinho, que fez o que pôde para evitar que seu adversário chegasse à Presidência da República, segundo relatos do próprio vencedor, Fernando Collor.
Mesmo os candidatos dos pequenos partidos acreditavam enfrentar quixotescamente seus moinhos de vento. Ronaldo Caiado, então no minúsculo PSD, obteve menos de 1% dos votos, mas hoje relembra: "Meus inimigos eram... o Lula".
COLLOR
No dia seguinte ao debate, eu recebo a notícia de que o Ibope estava divulgando no 'Jornal Nacional' uma pesquisa em que me colocava à frente do Lula apenas um ponto. Quando soube disso, eu disse... perdi a eleição
A eleição de 1989 foi solteira: ao contrário do que ocorreu a partir de 1994, a eleição presidencial não foi acompanhada de disputas para governador, senador e deputado. Essa situação favoreceu o surgimento de inúmeros candidatos - muitos não interessados na Presidência, mas apenas para tornar o nome e o partido mais conhecidos nacionalmente para disputas posteriores.
Concorreram 22 candidatos, sem contar o empresário Silvio Santos, que, na última hora, tentou entrar na disputa pelo PFL. Sem conseguir, buscou abrigo no obscuro PMB, no lugar de Armando Corrêa, que renunciou à disputa. A candidatura de Silvio, articulada por aliados do presidente José Sarney, acabou impugnada pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral), que encontrou problemas legais no PMB e excluiu o dono do SBT da corrida presidencial.
AFIF
Fizemos uma análise, numa linguagem de marketing, de que era uma eleição mais de produto que de fabricante
A ausência de grandes coligações, bem como uma economia desorganizada pela hiperinflação no final do governo Sarney, construiu um cenário em que os partidos tradicionais - como PMDB e PFL, que dominavam as políticas federal e estaduais - racharam, abrindo espaço para novos nomes. O eleitor queria novidade.
A disputa de 1989 renovou, consolidou e fez surgir personagens nacionais na política brasileira - seja na atuação como protagonista ou coadjuvantes.
Vinte anos depois, o segundo colocado Lula é presidente da República. Sarney ocupa, pela terceira vez no período democrático, a presidência do Senado. Collor é senador da base de apoio a Lula.
GABEIRA
Foi uma eleição completa
Brizola, morto em 2004, apoiou Lula no segundo turno de 1989 e foi candidato a vice do petista em 1998. O partido dele, o PDT, integra o governo e controla o politicamente importante Ministério do Trabalho.
Mário Covas (PSDB), quarto colocado, foi eleito governador de São Paulo duas vezes, em 1994 e 1998. Os tucanos apoiaram Lula ostensivamente no segundo turno em 1989, mas, a partir de 1994, passaram a polarizar com o PT a política nacional, tratando-se, muitas vezes, como inimigos.
Maluf (PDS, hoje PP), que em 1985 disputou a Presidência numa eleição indireta, deixou o posto de protagonista para virar coadjuvante deputado da base de Lula (que não cansa de "espetar", embora goste de elogiar a ministra Dilma Rousseff, da Casa Civil, provável candidata do PT à sucessão), assim como Guilherme Afif Domingos (ex-PL, hoje no DEM), secretário de governo do tucano José Serra, em São Paulo. Afif, que havia sido um dos colaboradores de Maluf no governo do Estado, liberou seus apoiadores, mas não apoiou Collor no segundo turno em 1989. Um dos coordenadores da campanha de Afif naquele ano é o hoje prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM).
Os nanicos de 1989 Ronaldo Caiado e Fernando Gabeira, que obtiveram menos de 1% dos votos em 1989, lideram as bancadas, respectivamente, do DEM e do PV na Câmara dos Deputados.
Militantes 'colloridos' e apoiadores de Lula entram em confronto em Osório (RS)
Tensão eleitoral Foi uma eleição tensa, com forte troca de acusações entre os candidatos, gritarias em debates e muita promessa de moralização.
MALUF
O Lula de 1989 não tem nada que ver com o Lula de 2009. Ele impunha um medo
Collor fez campanha associando Lula ao mundo comunista, aproveitando-se da queda do Muro de Berlim, menos de uma semana antes do primeiro turno. No segundo turno, a campanha de Collor exibiu no horário eleitoral na TV o depoimento de Miriam Cordeiro, ex-namorada de Lula, acusando o petista de tê-la pressionado para abortar a filha que esperava do então metalúrgico.
Collor considera hoje um erro ter colocado o depoimento. E Lula justifica a aproximação com o ex-rival.
Caiado
Collor nunca foi a nenhum debate [do primeiro turno]
"Minha relação com o Collor é a de um presidente com um senador da base (...) Não tenho razão para carregar mágoa ou ressentimento. Quando o cidadão tem mágoa, só ele sofre. Quando se chega à Presidência, a responsabilidade nas suas costas é de tal envergadura que você não tem o direito de ser pequeno", afirmou o petista em entrevista à Folha de S.Paulo no mês passado.
*As entrevistas foram concedidas aos jornalistas Haroldo Ceravolo Sereza (Collor, Maluf e Afif), Fernando Rodrigues (Sarney), Piero Locatelli (Caiado) e André Naddeo (Fernando Gabeira). Colaborou na edição Rodrigo Bertolotto
A adoção da leis antifumo no Brasil e, em particular, a lei antifumo de São Paulo, que entra em vigor neste dia 7 de agosto, são, em boa medida, resultado da aplicação da Convenção Quadro para Controle do Tabaco, negociada pela Organização Mundial da Saúde e aprovada em 21 de maio de 2003.
Até o momento, um total de 166 países já ratificaram a convenção. A adesão mais recente é a da Bósnia-Herzegóvina, de 10 de julho de 2009. Gabão, Moldova e Serra Leoa também ratificaram a convenção neste ano. Entre os países que o assinaram, mas não ratificaram, está a Argentina, embora o país já conte com legislações para locais antifumo.
Quadro das leis contra o tabagismo no mundoFonte: Relatório Working for Smokefree Air, da organização Global Smokefree Partnership, 2009
A convenção não determina de imediato a adoção de leis de restrição ao fumo em locais públicos. Mais, ao assiná-la, os países se comprometem a adotar uma série de medidas, entre elas a restrição à propaganda de cigarros e o combate ao fumo passivo em espaços públicos.
Em seu artigo oitavo, a convenção impõe aos países signatários que reconheçam "que a ciência demonstrou de maneira inequívoca que a exposição à fumaça do tabaco é causa de mortalidade, morbidade e incapacitação".
Além disto, o acordo determina que os países adotarão e aplicarão "medidas legislativas, executivas, administrativas e/ou outras medidas eficazes de proteção contra a exposição à fumaça do tabaco". Essas medidas devem restringir o fumo "nos locais de trabalho fechados, nos meios de transporte público, lugares públicos fechados".
Num texto que orienta a adoção de leis e políticas para a aplicação deste artigo, a Organização Mundial da Saúde recomenda que, "embora a definição precisa de 'lugares públicos' varie em função das jurisdições, é importante que a legislação defina esta expressão da maneira mais ampla possível".
A definição de "local púlbico", recomenda ainda a OMS, "deve abarcar todos os lugares acessíveis ao público em geral, ou de uso coletivo, independentemente de quem seja seu proprietário ou direito de acesso aos mesmos".
No começo de julho, passou a vigorar no México a proibição de fumar em edifícios públicos, restaurantes, bares e discotecas. As áreas exclusivas para fumantes devem ficar ao ar livre ou em locais interiores isolados, de modo que não seja necessário, aos não fumantes, passar por elas ao entrar ou sair dos estabelecimentos comerciais.
No dia 20 de julho, foi a vez de a Turquia adotar uma lei proibindo o fumo em áreas públicas fechadas. A lei prevê a realização de blitze para assegurar seu cumprimento. A Turquia é um dos países "mais fumantes" do mundo - metade dos homens adultos fuma, por exemplo -, mas, curiosamente, foi um dos primeiros países a adotar leis contra o fumo. Sob o reinado do sultão Murad 4º, no século 17, o tabaco e a bebida foram proibidos, e violar a lei sujeitava o infrator à pena de morte.
Também recentemente, adotaram leis antifumo em áreas públicas Croácia, Grécia e Angola.
Um dos momentos mais significativos para os antitabagistas foi a proibição, desde 1º de janeiro de 2008, de fumar em bares, restaurantes e outros espaços de convivência na França. Apesar dos protestos e passeatas contra a lei, ela foi implementada. O site que o governo mantinha para receber denúncias e orientar o público não é atualizado desde o ano passado.
Relatório de 2008 da organização GlobalSmokeFree afirma que "as leis antitabagismo continuam a se espalhar pelo mundo". As leis nem sempre são nacionais - podem ser estaduais, departamentais ou municipais. É o caso, por exemplo, da província do Québec, no Canadá: três anos após sua adoção, a lei, polêmica em seu início, não é mais contestada. "O progresso tem sido rápido ao longo dos últimos sete anos. E existem bons indícios de que esse progresso irá continuar", diz o texto.
Na época do relatório, 32 países tinham algum tipo de lei banindo fumo em locais públicos. A organização espera que até o fim de 2014, todos os países signatários da Convenção Quadro terão banido o fumo nestes locais.